A Ética como Instrumento de Paz

“Todos os hóspedes que chegarem ao Mosteiro
sejam recebidos como o Cristo, pois Ele próprio irá
dizer: ‘Fui hóspede e me recebestes’ (MT 25,35)

A primeira impressão que tive ao entrar em meu quarto de hóspedes na Abadia de Santa Maria, é que o ambiente simples e aconchegante, cumpria o raro papel de arremessar uma paulistana como eu, em um movimento singular de tranquilidade e introspecção. Todo o processo da chegada e acompanhamento para o aposento foi de uma simpatia e humildade, típicas da Ordem Beneditina.

gerenciamento o monge e o executivo

Quarto de hóspedes

Me retirar da metrópole para refletir sobre os acontecimentos de um ano pessoalmente movimentado não é uma novidade para mim, porém a companhia do Best Seller “O Monge e o Executivo” somado a clássica “Regra de São Bento” (adquirido na elegante loja da Abadia das religiosas) transformaram os 4 dias do retiro (de silêncio e ócio sagrado) na compreensão plena do quanto a Espiritualidade e a Ética possuem objetivos em comum.

Para quem não conhece a obra de James C. Hunter “O Monge e o Executivo”, o pequeno romance narra a busca de equilíbrio pessoal de um gestor em crise familiar, profissional e espiritual que durante um retiro, conhece e trava interessantes diálogos com um ex-executivo de grande sucesso que abandonou tudo que possuía para entrar na Ordem Beneditina, de nome Simeão. O romance se desenrola através destas conversas que também são compartilhadas por outros personagens (uma treinadora, um pastor batista e um militar) que se hospedam naquele mosteiro em busca de Conhecimento e Equilíbrio.

Os encontros e debates dos personagens refletem sobre seus processos de Liderança em crise (tanto no campo profissional, como afetivo) apontando suas fraquezas gerenciais e principalmente humanas. O mais interessante é que a obra de James C. Hunter, possui paralelos com a estrutura da “Regra de São Bento” (escrita em 529 d.C) que contém em seu núcleo, um conjunto de procedimentos cujo objetivo é conduzir todos os membros da Ordem Monástica para um caminho de crescimento mútuo e harmonia. Para além de um olhar religioso, também podemos encontrar neste pequeno manual medieval questões relevantes sobre Liderança e suas estreitas ligações com as virtudes da “paciência, humildade, respeito, honestidade, perdão, compromisso e disciplina” que constroem juntas uma só palavra: ÉTICA.

Para atestar esta afirmação, faremos um breve paralelo entre os dois livros para retirarmos deles  preciosas lições sobre Liderança tomando como base a figura do Abade, autoridade máxima dentro de um Mosteiro:

“Portanto, quando alguém recebe o nome de abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras (…)”
(REGRA DE SÃO BENTO)

Os “exemplos” – e por isso os cargos gerenciais são estratégicos – são essenciais para a criação de uma cultura ética empresarial. Pois, só através de atitudes coerentes e integras que as ações éticas podem potencialmente se alastrar hierarquicamente para todos os recantos de uma corporação. Tal como o ex-executivo fictício, ensina em suas palestras:

“Liderança: É a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir os objetivos identificados como sendo para o bem comum.”
(O MONGE E O EXECUTIVO)

Em um mosteiro REAL, o que mais um abade (ou abadessa) deve “ser” e “representar” para a sua comunidade, senão uma Liderança Ética e Amorosa?

“Consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz”
(REGRA DE SÃO BENTO)

Observem bem, quando o conceito de “assédio moral” (ou mesmo de feedback) nem se quer existia, SãoQuarto de Hóspedes Bento (480-547) já havia compreendido que tratar aos demais com amor e compreensão, tanto no tom de voz como no tratar adequado de um membro da Ordem (em qualquer que seja sua posição na hierarquia), é primordial não só para disseminar o amor por meio das ações, mas também para sustentar sua própria autoridade em terreno sólido, uma vez que a liderança não deve ser alicerçada no “poder” e sim na habilidade de influenciar outros a te seguirem, de boa vontade. Por isso, que São Bento, pode ser considerado, sem sombra de dúvida, o criador de um “modelo de gestão” que perdura com sucesso até os dias de hoje, principalmente se levarmos em consideração que a Instituição Beneditina (disseminada em todos os continentes) se mantem em funcionamento ininterrupto a mais de mil anos, perpassando a história (com seus modismos, tendências e crises) de forma consistente, nos levando a refletir que a “gestão beneditina”, possui um núcleo atemporal que deve ser cuidadosamente pesquisado.

Porém, quando tratamos de temas que remetem a religiosidade e principalmente a questão do “amor, da calma e da compreensão” dentro do campo da Gestão, cria-se um embrolho gigantesco (no entanto, é curioso destacar que empresas globais como a GOOGLE, aderiram ao sistema de medição benevolente, inspirados no zen-budismo, no intuito de transformar o ambiente organizacional a partir de uma mudança interior dos seus colaboradores. Este treinamento está atualmente integrado aos demais cursos gerenciais da universidade corporativa da empresa) por isso que algumas perguntas tornam-se difíceis de serem respondidas: “Como amar o próximo? Principalmente aquele que não produz com eficiência, não cumpre os prazos, é grosseiro e arrogante?.”

Esta questão de difícil resolução, muito bem debatida no romance está centrada na ideia de que não necessitamos “sentir amor por todos”, mas sim, aprender (e nos disciplinar) a tratá-los com amor, como o personagem Simeão esclarece:

“Amor não é como nos sentimos a respeito dos outros, mas como nos comportamos com os outros.”
(O MONGE E O EXECUTIVO)

O amor tem que fazer uma parceria com outras virtudes para se propagar, como fonte geradora de harmonia, o que em si, gera automaticamente uma sensação coletiva de confiança e boa vontade, transformando a Corporação em Comunidade. Na encruzilhada da modernidade, que gerou tantas revoluções (novos modelos de negócios de sucesso e inúmeras outras de fracassos) é momento de observarmos as instituições que continuam de pé, e aprender com estas, pois elas resguardam o segredo da Liderança e da Longevidade.

Agradeço imensamente as Monjas da
Abadia de Santa Maria e a Abadessa Escolástica.