“A credibilidade é um ativo volátil: laboriosa na conquista, veloz na perda”. Robert Srour

Objetivo: Apontar como a atual onda de protestos políticos relaciona-se com o desejo por ações éticas em todos os setores, inclusive nas relações empresariais.         

 

Medusa – Pintura de Caravaggio, 1597.

Quando era menina, não sabia ao certo se me apieda mais da Medusa (antes bela jovem, transformada em monstro pela inveja da deusa Atena) ou das serpentes que vivas em sua cabeça, como cachos volumosos, eram impedidas de libertarem-se, condenadas a se contorcerem desesperadamente no mesmo lugar.

Hoje, depois décadas, me lembrei desta mesma passagem mitológica, enquanto assistia pela Tv milhares de pessoas serpenteando as grandes cidades do país em busca de cidadania. Enfim, a crise ética no Brasil chega perto do seu ápice, porém as serpentes se debatem sem rumo, presas a cabeça da criatura que lentamente desperta, sem, no entanto, ter total dimensão de seu poder. Para os mais atentos – principalmente no meio empresarial – é o momento de rever estratégias e compreender as dimensões de uma sociedade volátil que busca por transparência em todos os níveis sociais e saberá, com certeza, recompensar quem atende seus desejos.

A multidão se reúne no espelho d´água do Monumento a Washington/1963.

Para quem é estudioso em Ética (e sua vertente ligada diretamente nos negócios) sabemos bem, que ações exteriores que almejam intensamente por processos éticos, tendem a pressionar internamente as instituições governamentais ou corporativas a mondarem-se as suas novas exigências. Foi assim com as manifestações em busca de direitos igualitários encabeçados por Martin Luther King na década de 50/60, foi assim com as famosas manifestações “Faça amor, não faça guerra” que impulsionaram a saída dos soldados americanos do Vietnã – depois de uma campanha fracassada de guerra -, foi assim com o longo e penoso processo de integração da África do Sul, para não falar em diversas outras que em menor ou maior grau conseguiram alcançar mudanças significativas que extrapolaram as relações cidadão-governo e acabaram por interferir em todos os níveis sociais, inclusive os de consumo (e qualidade crítica do consumidor), as leis trabalhistas e todo o ciclo de convivência entre as corporações e seus colaboradores.

A tomada de consciência civil gera novas diretrizes comportamentais e empresariais também.

Obviamente que um país de características pacíficas que possui raros episódios de estrapolação emocional coletivo, tende a expandir sua euforia com grande rapidez, criando uma interação bonita, mas conflituosa em seus múltiplos interesses.

A necessidade de Meta (palavra tão comum no vocabulário corporativo) se aplica bem a este momento, já que o descontentamento disforme e multifacetado dos anseios dos manifestantes não pode ser facilmente respondido com ações eficientes e imediatas. Quando surgiu o Occupy Wall Street em 2011, por exemplo, o evento civil organizado para protestar contra os episódios catastróficos da Crise Econômica de 2008, foi marcada pela clareza dos propósitos, a militância anti partidária, era personalizada por um grupo relativamente pequeno, que descreviam seus objetivos tanto com uma dose de utopia (típico das causas populares de características globais), como com a determinação requerida para dialogar sobre mudanças reais.

Cem mil pessoas reunidas na Rio Branco/RJ.06/2013

No entanto, se não somos capazes até o momento de uma representação ou mesmo de decifrar todos os contornos destes recentes acontecimentos de forma clara no Brasil, podemos ao menos diagnosticar o que muitos profissionais de minha área já profetizavam há muito tempo: A Ética se tornará uma imposição social (ao menos no campo mercadológico), que alterará as dimensões relacionais entre instituições e pessoas, principalmente no mundo dos negócios, que ainda resiste as mudanças e as diretrizes de um mercado novo, em que as pessoas no conforto de suas casas ou vi-celular podem influenciar positivamente ou negativamente marcas e produtos  ou interferir em sérias decisões políticas através das redes sociais.

É sem dúvida um tempo de renovação, cabe as Instituições se ater aos sinais transmitidos por  uma nação que anseia por mais seriedade e transparência. Se no momento esta multidão ainda serpenteia sem um rumo definido, não seria estranho prever, que em breve, consiga olhar com mais severidade aqueles que imprudentemente ignoram seu poder.

Rose Cunha