É muito comum, nas redes sociais (como linkedin), debates que chamam a atenção para um aspecto incômodo na vida de qualquer profissional:

             Como ser ético em uma empresa que fomenta negociações obscuras?

Tribunal de Nuremberg (1945/1946).

O tema é espinhoso, sem dúvida. E nos faz recordar da concepção do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), sobre nossa “condenação a liberdade”, ou seja, segundo a obra desde importante pensador, somos homens e mulheres totalmente aptos e irreversivelmente responsáveis por nossos atos, não cabendo qualquer recurso como desculpas, nem mesmo os discursos sociais (de vítima das circunstâncias) ou religiosos (arremessando aos céus a razão de nossos erros).

Obviamente, que muitos pensarão: “- É fácil falar em ética, quando não se está dentro de uma máquina corporativa que nos obriga a fazer coisas que não desejamos”. Certamente, existem situações que moralmente parecem encruzilhadas, mas, por mais prejudicial que seja uma decisão profissional (e sim, ela pode ser financeiramente ruim!) o resultado final pode ser surpreendentemente positivo (moralmente falando) a longo prazo. Exemplos emblemáticos sobre escolhas pessoais, podem ser encontrados abundantemente durante a II Grande Guerra Mundial, em que a postura anti-ética Nazista, impõe-se como uma regra geral, transformando grande parte da sociedade alemã em co-autores das inúmeras atrocidades cometidas.

Quando os principais generais da SS foram presos e julgados no Tribunal de Norumberg, acusados de crimes de guerra, eles responderam a cada acusação com uma das justificativas mais inquietantes do século passado: “ – Estava obedecendo ordens”, ou como afirmou Rudolf Höss (comandante do campo de extermínio de Auschwitz) durante seu interrogatório:

 “Pensava que fazia o correto, obedecia a ordens e agora, evidentemente, vejo que foi desnecessário e errado. Mas, não sei o que significa perturbar-me, porque pessoalmente não assassinei ninguém. Eu só era o diretor do programa de extermínio de Auschwitz.” [1]

Rudolf Höss (em sua distorção ética) compreendia que a obediência, o redimia de toda a responsabilidade. Este raciocínio deturpado sobre a relação “obediência e dever” é também ressaltado na obra do mais prestigiado historiador do Holocausto, o austríaco Raul Hilberg (1926-2007):

 “Deve-se ter em mente que a maioria dos participantes (do genocídio) não atirou em crianças nem despejou gás em câmaras de gás…A maioria dos burocratas compôs memorando, redigiu planos, falou ao telefone e participou de conferências. Podiam destruir todo um povo sentados em suas escrivaninhas.”[2]

Portão de Auschwitz, onde lemos “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”).

Todo o mecanismo nazista produzia uma uniformização comportamental, fomentando uma insensibilidade generalizada difícil de ser compreendida. O funcionamento industrial dos campos de concentração eram patrocinados por uma rede que ia dos mais altos escalões do partido Nazista até os eletricistas que faziam as máquinas de extermínio funcionarem com uma eficácia constrangedora. Cada agente recrutado pelo ideal nazista, era um ser independente, passível de uma reação, passível de dizer “não.” Sem dúvida, que cada “ação” corresponde a uma “reação”, mas ninguém, nunca, falou que nossas escolhas seriam fáceis. Se alguém lhe disse ao contrário, desconfie.

A ação não ética, só se alastra por uma corporação, quando esta tem o consentimento passivo dos funcionários das diversas hierarquias, ou quando cada indivíduo – duvidoso de suas próprias virtudes – deixa-se corromper pelas ordens recebidas pelo coletivo. É neste ponto que muitos se equivocam sobre o significado da Ética, compreendendo-a como um conjunto de regras que devem ser “obedecidas cegamente”, mesmo que ela recaía no irracional ou no absurdo. Isso é um equivoco perigoso, pois a Ética só se estabelece pela via do bem coletivo. Quando os consultores americanos Ronald Howard e Clinton Korver, discutem no livro “Ética Pessoal” sobre o processo de “insensibilidade ética” que afetam homens e mulheres (inclusive e acentuadamente no campo profissional) eles lançam uma questão a ser respondida em um próximo artigo:

 “Devemos ir além de simplesmente despertar para nossa sensibilidade.

Devemos identificar por que nos tornamos insensíveis.”.

 Por que?


[1] http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/nuremberg/psi_julgamentos_nuremberg.pdf

[2] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Tradução de Marcus Penchel. Editora Jorge Zahar, 1998. pág. 44.

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Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Tradução de Marcus Penchel. Editora Jorge Zahar, 1998. pág. 44.

HOWARD, Ronald e Clinton D. Konder. Ética pessoal para o mundo real um código ético e pessoal para guiar suas decisões no trabalho e na vida. Tradução de Maria Lúcia Rosa. São Paulo: M.Books, 2011.

http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/nuremberg/psi_julgamentos_nuremberg.pdf