Quando se assiste o filme “Amor sem Esdemissão e eticacalas” (Up In The Air, 2009), se espera um roteiro romântico acompanhado do sorriso irresistível de George Clooney. Porém, o que encontramos é uma história bem construída, focada nos múltiplos dramas existentes nas relações corporativas que se tornam ainda mais ácidas em um mundo Ética e economicamente em crise.

O tema do filme gira em torno de uma Outplacement empresas contratadas para agilizar (e tentar humanizar) os sistemas de demissão de massa de uma organização, dissolvendo os tradicionais métodos de dispensa em que o contratante (o gestor direto) comunicava a demissão de seu funcionário olho no olho, verbalizando os motivos da dispensa e compartilhando, de certa forma, do momento sempre constrangedor do fim de uma parceria. Porém, a delegação desta tarefa para outros, aponta não só para o enfraquecimento das relações humanas (o distanciamento do sofrimento e do desconforto que a dor de outra pessoa pode causar) como também são sintomas gritantes de nossa época, superlotada de uma necessidade emergencial de felicidade e de um ilusório conforto emocional encontrado na ausência de emoções. Este movimento de fragmentação do convívio social também contaminou os sistemas corporativos, como bem retrata a pesquisadora da FGV Maria Ester de Freitas:

muitas demissões foram feitas por e-mail, por telefone, no meio das férias, no final do expediente quando o individuo já estava no estacionamento (…) Negou-se ao homem demitido não apenas o direito de limpar as suas gavetas ou armários, mas também o de demonstrar a sua humanidade, fosse no adeus aos colegas de tantos anos, fosse na face que exprimia uma dor.”1

Devemos nos ater que a visão do trágico (na figura do outro que sofre) sempre foi uma etapa absolutamente necessária para o amadurecimento humano, uma vez que este contato, nos coloca diante de nossos próprios medos e nos impulsiona a superá-los através da solidariedade que o outro nos provoca. É uma lição básica ensinada incansavelmente pelas religiões a milhares de anos, se a negarmos, estamos abrindo mão de nossa experiência humana, e finalmente estaremos nos entregando ao mecanicismo retratado no filme:

Atualmente é comum entre os profissionais de Gestão de Pessoas, uma preocupação crescente em relação aos processos de dispensa, que foram diretamente influenciados pelo endurecimento de nosso tempo, em que virtualizaram o calor humano e terceirizaram o bom senso.

Nossa intenção de viver e nos comunicar globalmente, talvez tenha criado uma falsa sensação de “aldeia global”, que na prática tem se mostrado apenas como uma kitchenette solitária com uma janela pequena para o mundo. A Ética (no campo social ou corporativo) sempre nos alertou sobre esta tendência humana a indiferença, por isso, que para além da Reputação, Marca e Estabilidade das relações entre a Empresa e seus Colaboradores, a Ética tem o papel fundamental de nos levar a reconhecer quem somos através do outro, condição humana, que deve ser respeitada em “todos os processos” (inclusive empresariais) para que o fim de uma parceria, por exemplo, seja realmente um novo inicio para quem é dispensado, e não mais uma etapa amarga de procedimentos mal concebidos. Por isso, que os sistemas de governancia devem possuir em todas as suas fases uma preocupação ética, pois é ela, que desde os antigos gregos, tem como foco central a ação e reação humana.

Se, segundo Nietzsche  “todo o humano é demasiadamente humano”, uma empresa deve ser “ainda mais humana”, para quê?

Diferente do legado de Henry Ford (1863-1947) que declarava sobre seus funcionários  ”Por que tenho de ter a pessoa inteira se preciso apenas de um par de mãos?”, hoje, cada colaborador deve ser cuidadosamente compreendido e valorizado (em sua totalidade), desde a sua contratação, permanência até o fim da parceria. Para tanto, toda estratégia de Gestão de Pessoas deve estar aliada as concepções Éticas, que conhecidamente impulsionam o engajamento (e a sensibilização dos colaboradores) em suas inter-relações, gerando um clima organizacional mais saudável,  própria das Corporações de grande Reputação, que respeitam o espírito da empresa e o fator humano.

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1FREITAS, Maria Este. Por uma ética na demissão?.Revista de Administração de Empresas.Rev. adm. empres. vol.46 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2006