ética e negóciosEstrutura fundamental para a construção de uma marca respeitada e uma empresa estável, a ética, torna-se prioridade para orientar as decisões de executivos de todos os níveis empresariais, que comumente, sentem-se pressionados por um mercado altamente competitivo, que exige especialização, talento, conhecimento estratégico e além de tudo, uma rapidez angustiante na tomada de decisões, lançando um mal estar permanente entre os membros das instituições. A falta de diretrizes éticas explica a elevada taxa de equívocos nas resoluções gerenciais, diretamente relacionadas as dificuldades que muitos administradores possuem de determinar quais são os parâmetros que devem reger uma deliberação acertada e benéfica para a organização como um todo.

A causa deste incômodo sintoma é identificada como “relativismo ético”, fator que desorientou as noções até então aceitas de “bem” e “mal” nas últimas cinco décadas. O renomado consultor americano Tom Morris, batizou esta insegurança decisória de “Tribalismo Ético”[1], e seus efeitos podem ser observados no mercado globalizado, que diante da diversidade de tradições e em meio a choques culturais, não consegue definir a si mesmo, criando uma bipolaridade ética que afetará negativamente a possibilidade de longevidade de qualquer empresa. Um exemplo notório da importância de manter-se conectado ao mundo, mas sem perder seu eixo gerador, são as empresas japonesas, que se adaptaram ao mercado ocidental, sem se abster de suas características culturais. Lembrando que o sucesso do moderno legado empresarial japonês, provêm de uma  ética remanescente dos samurais, em que o código Bushidô[2] modelou o eficaz gerenciamento da terceira maior economia do mundo. Porém, nossa cultura (como todo o ocidente) está submerso numa variedade de conceitos nunca antes experimentada, por isso podemos nos perguntar:

 Como construir solidez, em um mundo que se liquefaz em todas as estruturas até então conhecidas?

Para tanto, devemos não só voltar aos antigos (mais sempre atuais) ética bushido e negóciosescritores gregos, como compreender especialistas das mais diversas áreas gerenciais, que compreendem o valor do tema e o quanto sua aplicação prática, pode remodelar as relações entre os funcionários (sanando disfunções e conflitos operacionais entre os mesmos) como também fortalecer as relações entre as empresas parceiras e clientes.

Diferente da visão estreita que liga a Ética a uma ideologia inaplicável ao mundo real, as exigências desta nova economia volátil nos impactou com a necessidade da implementação de uma gestão ética, em vista de sua emergência no campo dos negócios, já que a relação entre as empresas, a sociedade e o meio ambiente se tornaram indivisíveis. Transparência (verdade), colaboração (unidade), lealdade (bondade), liderança (justiça), representam novos termos para conceitos clássicos, reagrupados para os propósitos atuais, mas que possuem em seu núcleo um mesmo objetivo: Consolidar valores. Se nos detivermos ao primeiro ponto (transparência), como mero exemplo, podemos recorrer aos estudos de caso dos consultores americanos Ronald Howard e Clinton Korder que aqui narram sobre o poder da transparência nos negócios:

 “No setor sem fins lucrativos, um gerente que demonstrou como transformar uma cultura de mentira é Charles Anderson, diretor executivo da United Way of the National Capital Area em Washington, D.C. Anderson assumiu a United Way local em 2003, depois de mandar o ex-diretor executivo da Oral Suer para a prisão, por fraude. Anderson reconstruiu a confiança dos doadores na organização, e optou pela transparência radical e pela responsabilidade de fazer isso”[3].

Obviamente, que a prevenção ética, é muito mais eficaz que sua aplicação posteriormente, porém a administração da transparência por si só, é capaz de gerar bons resultados a longo prazo, ofertando confiabilidade a nomes manchados por fraudes. Devemos nos ater sempre, que o “inverso” de uma atitude ética, pode ocasionar eventos desastrosos, como a recente crise imobiliária americana, que abalou inúmeras economias no globo e embargou o crescimento já problemático dos países em desenvolvimento, causado pela dissimulação de dados e o silêncio das instituições bancárias diante da sede ilimitada de créditos dos vorazes consumidores americanos. Portanto, antes de simplesmente contabilizar os efeitos econômicos deste acontecimento, podemos ir mais longe, para diagnosticar os problemas éticos que o impulsionaram e compreender o quanto o entendimento e aplicação de diretrizes normatizadoras poderiam mudar o curso da história econômica desta década.

O mais interessante a ser observado é que estas transgressões ao bom convívio social (de pequenas ou grandes proporções), podem começar em microestruturas e progredirem de forma nociva para todas as ramificações gerenciais ou vice-versa: nascer no topo hierárquico da empresa e descer sorrateiramente para todos os demais níveis, passando de um mau hábito de departamento para o declínio de uma marca ou reputação de uma organização. Diagnosticar os sintoma previamente tornou-se o objetivo das empresas citadas pela Ph.d. Laura L. Nasch:

“Dirigentes de empresas de porte, como a Johnson&Johnson, a IBM, a Goldman Sachs, a Hewlett-Packard, a Ford a 3M, a Wal-Mart, a General Mills e muitas outras já enfatizaram que altos padrões pessoais de conduta são um ativo importante, tão valioso economicamente quanto aquele outro bem intangível chamado ‘clientela’.”[4]

Quando a credibilidade se torna essencial para a competitividade comercial, a Ética necessariamente, tem que fazer valer suas diretrizes, não para agir como um inquisidor pelos departamentos da empresa, mas para direcionar as ações de seus dirigentes e auxiliá-los nas pesadas decisões diárias. Assim, mais que uma ferramenta de conhecimento profissional, a ética é um instrumento abrangente que pode moldar uma equipe e determinar os caminhos de uma corporação.

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 Bibliografia Parcial:

COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HOWARD, Ronald e Clinton D. Konder. Ética pessoal para o mundo real um código ético e pessoal para guiar suas decisões no trabalho e na vida. Tradução de Maria Lúcia Rosa. São Paulo: M.Books, 2011.

LAFAYETE, Boye. O código Samurai. Tradução de Elizabeth Bueno. São Paulo: Editora Landscape, 2005.

MORRIS, Tom. A nova alma do negócio: como a filosofia pode melhorar a produtividade de sua empresa. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues e Priscila Martins Celeste. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

NASH, Laura L. Ética nas empresas: guia prático para soluções de problemas éticos nas empresas. Tradução Katia Aparecida Roque. São Paulo: MAKRON Books do Brasil, 2001.


[1]              MORRIS, Tom. A nova alma do negócio: como a filosofia pode melhorar a produtividade de sua empresa. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues e Priscila Martins Celeste. Rio de Janeiro: Campus, 1998. pág. 152.

[2]              Bushidô: “o caminho do guerreiro”, “o código de conduta Samurai”.

[3]              HOWARD, Ronald e Clinton D. Konder. Ética pessoal para o mundo real um código ético e pessoal para guiar suas decisões no trabalho e na vida. Tradução de Maria Lúcia Rosa. São Paulo: M.Books, 2011. pág. 165.

[4]              NASH, Laura L. Ética nas empresas: guia prático para soluções de problemas éticos nas empresas. Tradução Katia Aparecida Roque. São Paulo: MAKRON Books do Brasil, 2001, pg.04.